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terça-feira, 14 de setembro de 2010

A Oração é a Luz da Alma

Das homilias do Pseudo-Crisóstomo
(Supp., Hom. 6 de precatione: PG 64,462-466)
(séc.IV)

A oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem interrupção.

Com efeito, não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas – como o cuidado dos pobres, as obras úteis de misericórdia ou quaisquer outros serviços do próximo – é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. E assim, todas as nossas obras, temperadas com o sal do amor de Deus, se tornarão um alimento dulcíssimo para o Senhor do universo. Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível.

A oração é a luz da alma, o verdadeiro conhecimento de Deus, a mediadora entre Deus e os homens. Pela oração a alma se eleva até aos céus e une-se ao Senhor num abraço inefável; como uma criança que, chorando, chama sua mãe, a alma deseja o leite divino, exprime seus próprios desejos e recebe dons superiores a tudo que é natural e visível.

A oração é venerável mensageira que nos leva à presença de Deus, alegra a alma e tranquiliza o coração. Não penses que essa oração se reduza a palavras. Ela é desejo de Deus, amor inexprimível que não provém dos homens, mas é efeito da graça divina, como diz o Apóstolo: “Nós não sabemos o que devemos pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis” (Rm 8,26).

Semelhante oração, quando o Senhor a concede a alguém, é uma riqueza que não lhe pode ser tirada e um alimento celeste que sacia a alma. Quem a experimentou inflama-se do desejo eterno de Deus, como que de um fogo devorador que abrasa o coração.

Praticando-a em sua pureza original, adorna tua casa de modéstia e humildade, torna-a resplandecente com a luz da justiça. Enfeita-se com boas obras, quais plaquetas de ouro, ornamenta-se de fé e de magnanimidade em vez de paredes e mosaicos. Como cúpula e coroamento de todo o edifício, coloca a oração. Assim prepararás para o Senhor uma digna morada, assim terás um esplêndido palácio real para o receber, e poderás tê-lo contigo na tua alma, transformada, pela graça, em imagem e templo da sua presença.

Extraído do Ofício das Leituras –Tempo da Quaresma,
Sexta-feira depois das Cinzas, segunda leitura.

domingo, 5 de setembro de 2010

O que é Oração?

Santa Teresinha do Menino Jesus dizia que a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou no meio da alegria.

“A oração é a elevação da alma a Deus ou o pedido a Deus dos bens convenientes” (São João Damasceno). De onde falamos nós, ao rezar? Das alturas de nosso orgulho e vontade própria, ou das profundezas de um coração humilde e contrito? Quem se humilha será exaltado. A humildade é o fundamento da oração. “Nem sabemos o que seja conveniente pedir” (Rm 8, 26). A humildade é a disposição para receber gratuitamente o dom da oração; o homem é um mendigo de Deus.

“Se conhecesses o dom de Deus!” (Jo 4,10). A maravilha da oração se revela justamente aí, à beira dos poços aonde vamos procurar nossa água; é aí que Cristo vem ao encontro de todo ser humano, é o primeiro a nos procurar, e é Ele quem pede de beber. Jesus tem sede, seu pedido vem das profundezas do Deus que nos deseja. A oração, quer saibamos ou não, é o encontro entre a sede de Deus e a nossa. Deus tem sede de que nós tenhamos sede dele.

“És tu que lhe pedirias e Ele te daria água viva!” (Jo 4,10). Nossa oração de pedido é, paradoxalmente, uma resposta. Resposta à queixa do Deus vivo: “Eles me abandonaram a mim, a fonte de água viva, para cavar para si cisternas furadas!” (Jr 2,13), resposta de fé à promessa gratuita da salvação, resposta de amor à sede do Filho único.


De onde vem a Oração?

Qualquer que seja a linguagem da oração (gestos e palavras), é o homem todo que reza. Mas, para designar o lugar de onde brota a oração, as Escrituras falam às vezes da alma ou do espírito, geralmente do coração (mais de mil vezes). É o coração que reza. Se ele está longe de Deus, a expressão da oração é vã.

A oração cristã é uma relação de Aliança entre Deus e o homem em Cristo. É ação de Deus e do homem; brota do Espírito Santo e de nós, totalmente dirigida para o Pai, em união com a vontade humana do Filho de Deus feito homem.


Para reflexão:

a) O que é a oração e qual deve ser sua perspectiva geral na vida cristã?

b) Quais os critérios essenciais para que nossa oração seja verdadeira e, assim, possa ser ouvida e atendida por Deus?

A Revelação da Oração

A oração de Abraão e Jacó se apresenta como um combate da fé apoiada na confiança e na fidelidade de Deus e na certeza da vitória prometida à perseverança. A oração de Moisés responde à iniciativa do Deus vivo para a salvação de seu povo. Prefigura a oração de intercessão do único mediador, Jesus Cristo.

A oração do povo de Deus floresce a sombra da Casa de Deus, da Arca da Aliança e do Templo, sob a direção dos pastores, principalmente do Rei Davi, e dos profetas. Os profetas chamam à conversão do coração e, buscando ardentemente a face de Deus, como Elias, intercedem pelo povo.

Os Salmos constituem a obra-prima da oração no Antigo Testamento. Apresentam dois componentes inseparáveis: o pessoal e o comunitário. Estendem-se a todas as dimensões da história, comemorando as promessas de Deus já realizadas e esperando a vinda do Messias. Rezados e realizados, os Salmos são um elemento essencial e permanente da oração de sua Igreja e são adequados aos homens de qualquer condição e tempo.

Três parábolas principais sobre a oração nos são transmitidas por Lucas:

1) “O amigo importuno” (Lc 11, 5-8): convida a uma oração persistente.

2) “A viúva importuna” (Lc 18, 1-8): focaliza uma das qualidades da oração = é preciso rezar sem esmorecimento, com a paciência da fé.

3) “O fariseu e o publicano” (Lc 18, 9-14): refere-se à humildade do coração que reza.

No Novo Testamento, o modelo perfeito da oração encontra-se na prece filial de Jesus. Feita muitas vezes na solidão, no segredo, a oração de Jesus implica uma adesão amorosa à vontade do Pai até a cruz e uma confiança absoluta de ser ouvido. Jesus ensina seus discípulos a orar com um coração purificado, uma fé viva e perseverante, uma audácia filial. Incita-os à vigilância e convida-os a apresentar a Deus seus pedidos em seu Nome. Jesus Cristo atende pessoalmente às orações que lhe são dirigidas.

A oração da Virgem Maria, em seu “Fiat” e em seu “Magnificat”, caracteriza-se pela oferta generosa de todo seu ser na fé. O Evangelho nos revela como Maria ora e intercede na fé: em Caná, a mãe de Jesus pede a seu filho pelas necessidades de um banquete de núpcias, sinal de outro Banquete, o das núpcias do Cordeiro.


Para reflexão:

a) A Sagrada Escritura nos apresenta homens e mulheres que viveram uma vida de oração. Como podemos trazer estes exemplos para a concretização em nossa vida?

b) Lucas apresenta três parábolas que transmitem características fundamentais para a oração. Qual a real condição dessas características em nossas orações (elas acontecem)?

Quem nos ensina a rezar?

O Espírito Santo, que ensina a Igreja e lhe recorda tudo o que Jesus disse, educa-a também para a vida de oração, suscitando expressões que se renovam dentro de formas permanentes: bênção, súplica, intercessão, ação de graças e louvor. É por uma transmissão viva, a Tradição, que, na Igreja, o Espírito Santo ensina os filhos de Deus a orar. Ao orar, Jesus já nos ensina a orar. No Sermão da Montanha, Jesus insiste na conversão do coração: a reconciliação com o irmão antes de apresentar uma oferenda no altar, o amor aos inimigos e a oração pelos perseguidores, a oração ao Pai “em segredo” (Mt 6,6). O coração assim decidido a se converter aprende a orar na fé. Assim como Jesus ora ao Pai e dá graças antes de receber seus dons, Ele nos ensina essa audácia filial: “Tudo quanto suplicardes e pedirdes, crede que já recebestes!” (Mc 11,24). A oração de fé não consiste apenas em dizer: “Senhor, Senhor!”, mas em levar o coração a fazerem a vontade do Pai.




A Igreja convida os fiéis a uma oração regular: orações diárias, Liturgia das Horas, Eucaristia Dominical, festas do ano litúrgico. A tradição cristã compreende três expressões maiores da vida de oração:

1) Vocal: fundada na união do corpo e do espírito na natureza humana, associa o corpo à oração interior do coração, a exemplo de Cristo, que reza a seu Pai e ensina: “Pai-nosso....”

2) Meditação: busca orante que põe em ação o pensamento, a imaginação, a emoção, o desejo. Tem por finalidade a apropriação crente do assunto meditado, confrontado com a realidade de nossa vida.

3) Mental: expressão simples do mistério da oração. É um olhar de fé fito em Jesus, uma escuta da Palavra de Deus, um silencioso amor.


Para reflexão:

a) Precisamos aprender a orar. De que forma nós, jovens, podemos aprimorar a qualidade de nossas orações? Quem nos ensina a rezar?

b) Existem diferentes formas de orar. Cite-as e mostre de que forma podemos vivenciá-la concretamente (exemplos práticos do dia-a-dia).

Quando rezar?

A oração supõe um esforço e uma luta contra nós mesmos e contra os embustes do Tentador. O combate da oração é inseparável do “combate espiritual” necessário para agir habitualmente segundo o Espírito de Cristo: reza-se como se vive, porque se vive como se reza. No combate da oração devemos enfrentar concepções errôneas, diversas correntes de mentalidade, a experiência de nossos fracassos.

A essas tentações que lançam dúvida sobre a utilidade ou a própria possibilidade da oração convém respondem pela humildade, confiança e perseverança. As dificuldades principais no exercício da oração são a distração e a aridez. O remédio está na fé, na conversão e na vigilância do coração.


As modalidades da oração:

1) Oração de súplica: é a oração de pedir, implorar, suplicar com insistência, invocar, clamar, gritar e mesmo “lutar na oração”. O pedido de perdão é o primeiro movimento da oração de súplica. É a condição prévia de uma oração justa e pura.

2) Oração de intercessão: é a oração em que pedimos em favor de outro. “Aquele que ora não procura seus próprios interesses, mas pensa sobretudo nos dos outros!” (Fl 2,4). As primeiras comunidades cristãs viveram intensamente essa forma de partilha.

3) Oração de ação se graças: caracteriza a oração da Igreja que, celebrando a Eucaristia, manifesta e se torna mais aquilo que ela é. Todo acontecimento e toda necessidade podem se tornar oferenda de ação de graças: “Por tudo dai graças!” (1Ts 5,18).

4) Oração de louvor: é a forma de oração que reconhece o mais imediatamente possível que Deus é Deus. Canta-o pelo que Ele faz, por aquilo que Ele é.


Para reflexão:

a) Em quais momentos devemos orar? Temos seguido o que nos ensina a Igreja quanto aos momentos em que devemos orar?

b) Cite as diversas formas de oração que a Igreja nos apresenta e exponha as dificuldade para uma vida de oração.

sábado, 28 de agosto de 2010

Deus e a Kriptonita


Tem gente que confunde Deus com o super-homem! Zoeira? Nem um pouco. Tem um terremoto e já se perguntam: “onde estava Deus que não impediu?”Acontece alguma morte e “foi vontade de Deus…” como se Ele estivesse comendo um mac lanche na esquina e “resolvesse” não agir e deixar o sujeito bater as botas. Pense bem. Você se relaciona com Deus ou com o super-homem? 
Hommer Simpson em um dos episódios do seu seriado, num momento de desespero olha para o céu estrelado e diz: “Eu sei que eu nunca fui um sujeito muito religioso, mas caso você exista, ME AJUDE SUPERMAN!”. É isso, disse o que muita gente pensa e não diz. 
Quantas vezes pedi pra Deus resolver isso ou aquilo, agir assim ou assado, fazer o que eu achava correto! Estava conversando com o super-homem e não sabia. Afinal, surgir e dar uma mãozinha fazendo “o bem” e desaparecer nos céus no mesmo instante, só o super-homem mesmo. Vida fácil, sem compromisso e comprometimento. Por isso muita gente rompeu com o todo-poderoso. Se Ele é todo-poderoso, porque não faz a minha vontade e me deixa sozinho pra curtir depois? Porque nunca vi ninguém convidar o super-homem pra uma pizza depois de ser salvo por ele? Porque eu só quero usar os seus serviços… óbvio.

E quando fazemos de Deus um vidente de quinta categoria? Senhor, vou me dar bem nesse emprego? Com quem eu devo fazer sociedade? Qual o numero da mega-sena? Caso ou compro uma bicicleta? Por que Deus não me responde???? Claro, não queremos ficar sem nosso direito de escolha, o famoso livre-arbítrio, mas queremos que Deus nos dê opções aceitáveis, suportáveis, vantajosas, aí a gente escolhe e Ele se encarrega de concretizar tudo. Se não faz, não é Deus coisissima nenhuma. Talvez em outra religião tem um Deus melhorzinho, mais “acessível”.

Taí a kriptonita de Deus! Como o super-homem é impotente contra a pedra de Kripton, Deus é impotente em corações de pedra! Bate, pede licença, mas só quebra a pedra se deixarmos… Você está com Deus porque acha que ele pode quebrar os seus galhos? Ou está disposto a construir uma relação com Ele e ser dócil mesmo quando não lhe “convém”? Mesmo quando parece difícil acreditar ou suportar?

Relação é assim: eu falo, mas também escuto, dou minha opinião, mas nem sempre ela é aceita, estou junto, mas nem sempre “me dou bem”… Construir uma relação com Deus leva tempo e trabalho, bem ao contrário de utilizar os super-poderes do super-homem. E você? Anda conversando com Deus ou com o super-homem?

Flávio Crepaldi

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Luz, câmera, ação!

No espetáculo da vida nós, personagens, temos nos perdido em tantos papéis... vamos vestindo máscaras e figurinos diversificados em cada cenário que atuamos, nos distanciando cada vez mais de quem somos, perdendo o que temos de mais precioso: a beleza inicial, a autenticidade, a originalidade, a essência.

No grande palco dos mascarados, nossas atuações não podem ser contrários aos scripts escritos pelos diretores de cena que manipulam tudo conforme lhes convém... temos medo da exclusão, da solidão... não queremos perder nossos papeis, mas também não fazemos questão de sermos nós mesmos.

Nossos princípios permanecem adormecidos em nossos corações, como canções que ficam gravadas em nossas memórias, trilhas sonoras de sonhos, esperança de dias melhores. Mas o medo e a melancolia são mais fortes, e as habituais máscaras nos são apresentadas como muito confortáveis e prazerosas.

Procuramos outros palcos e cenários, fazemos teste de elenco, procuramos nos olhos da platéia a coragem para sermos verdadeiramente quem somos, mas as tramas da face nos deixam sempre prontos pra mentir, tão naturalmente como as farsas de um palhaço, que pinta o rosto para não mostrar as dores que sente nem a essência que guarda.

E diante do Grande Diretor do nosso espetáculo, a Verdade acende a Sua Luz... não dá pra mais pra fingir nem ocultar as verdades que estão em nós... as fantasias se dissolvem e todas as máscaras se desprendem dos rostos... os ensaios terminam, e somos convidados a atuar como protagonistas deste grande ato.

Pra sermos felizes nesta cena precisamos ser quem somos, abandonando-nos nas mãos do Grande Autor que criou cada personagem de forma primorosa. A trilha sonora começa a tocar nossas antigas canções, guardadas há tanto tempo, mas que agora brotam cheias de alegria e fazem os demais personagens acordarem, descobrindo que ainda há muito a ser feito... e unidos nesta grande ciranda chegaremos com sucesso ao fim deste maravilhoso espetáculo: sem máscaras no rosto, sem máscaras no coração... as cortinas se fecham ao final de tudo. Aplausos à vida.

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