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terça-feira, 26 de outubro de 2010

As glórias da Virgem Maria segundo as Escrituras

Muitas e grandiosas são as glórias de Maria Santíssima, pelas quais não cessam de propagar e cantar seus louvores todos os seus servos. Não apenas os anjos e santos nos céus, mas também nós os pecadores glorificamos com confiança todos os dias a tão excelsa mãe. Não podia, portanto, a Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, calar-se a respeito da mais sublime de suas criaturas. Apresentaremos um pequeno resumo de como as Sagradas Escrituras exaltam e testemunham às glórias de Nossa Senhora.


“Entrando o anjo disse-lhe: ‘Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo’” (Lc 1, 28)

Eis aqui, proclamado pelo próprio anjo Gabriel o privilégio extraordinário da Imaculada Conceição de Maria e sua santidade perene. Quando a Igreja chama Maria de “Imaculada Conceição” quer dizer que a mesma, desde o momento de sua concepção foi isenta - por graça divina - do pecado original. Se Maria Santíssima tivesse sido gerada com o pecado herdado de Adão ou tivesse qualquer pecado pessoal, o Arcanjo Gabriel teria mentido chamando-a de “cheia de graça”. Pois, onde existe esta “graça transbordante” não pode coexistir o pecado. Por isso, esta boa Mãe é também chamada pelos seus servos de “Santíssima Virgem”. Os santos ensinaram que não convinha a Jesus Cristo, o Santíssimo, ser gerado e nascer de uma criatura imperfeita. Como podia o Santíssimo Deus, Jesus Cristo ser depositado num receptáculo que não fosse digno dEle? Pois ele mesmo testemunha no Evangelho, que não se coloca vinho novo e bom em odres velhos e defeituosos (conf. Lc 5, 37). Eis porque o Criador elevou Maria, este “Vaso Insigne de Devoção” a tão grande santidade.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

São Jerônimo - 30 de Setembro

Neste último dia do mês da Bíblia, celebramos a memória do grande "tradutor e exegeta das Sagradas Escrituras": São Jerônimo, presbítero e doutor da Igreja. Ele nasceu na Dalmácia em 340, e ficou conhecido como escritor, filósofo, teólogo, retórico, gramático, dialético, historiador, exegeta e doutor da Igreja. É de São Jerônimo a célebre frase: "Ignorar as Escrituras, é ignorar a Cristo".

Com posse da herança dos pais, foi realizar sua vocação de amante dos estudos em Roma. Estando na "Cidade Eterna", Jerônimo aproveitou para visitar as Catacumbas, onde contemplava as capelas e esforçava-se por decifrar os escritos nos túmulos dos mártires. Em Roma, Jerônimo teve um sonho que foi determinante para sua conversão: neste sonho, Jerônimo apresentava-se como cristão e era repreendido pelo próprio Cristo por estar faltando com a verdade (pois ainda não havia abraçado as Sagradas Escrituras, mas somente escritos pagãos). Cerca do fim desta permanência em Roma, Jerônimo recebeu o Batismo.

Após isso, iniciou os estudos teológicos e decidiu lançar-se numa peregrinação à Terra Santa, mas uma prolongada doença obrigou-o a permanecer em Antioquia. Enfastiado do mundo e desejoso de quietude e penitência, retirou-se para o deserto de Cálcida, com o propósito de seguir na vida eremítica. Ordenado sacerdote em 379, retirou-se para estudar, a fim de responder com a literatura às necessidades da época. Tendo estudado as línguas originais para melhor compreender as Escrituras, Jerônimo pôde, a pedido do Papa Dâmaso, traduzir com precisão a Bíblia para o latim (língua oficial da Igreja). Esta tradução recebeu o nome de Vulgata. Assim, com alegria e prazer se empenhou para enriquecer a Igreja universal.

Saiu de Roma, e foi viver definitivamente em Belém no ano de 386, onde permaneceu como monge penitente e estudioso, continuando as traduções bíblicas, até falecer em 420, aos 30 de setembro com, praticamente, 80 anos de idade. A Igreja declarou-o padroeiro de todos os que se dedicam ao estudo da Bíblia e fixou o "Dia da Bíblia" no mês do seu aniversário de morte, ou ainda, dia da posse da grande promessa bíblica: a Vida Eterna.




Dele disse o Papa Bento XVI:

"A preparação literária e a ampla erudição permitiram que Jerónimo fizesse a revisão e a tradução de muitos textos bíblicos: um precioso trabalho para a Igreja latina e para a cultura ocidental. Com base nos textos originais em grego e em hebraico e graças ao confronto com versões anteriores, ele realizou a revisão dos quatro Evangelhos em língua latina, depois o Saltério e grande parte do Antigo Testamento. Tendo em conta o original hebraico e grego, dos Setenta, a versão grega clássica do Antigo Testamento que remontava ao tempo pré-cristão, e as precedentes versões latinas, Jerónimo, com a ajuda de outros colaboradores, pôde oferecer uma tradução melhor: ela constitui a chamada 'Vulgata', o texto 'oficial' da Igreja latina, que foi reconhecido como tal pelo Concílio de Trento e que, depois da recente revisão, permanece o texto "oficial" da Igreja de língua latina.

É interessante ressaltar os critérios aos quais o grande biblista se ateve na sua obra de tradutor. Revela-o ele mesmo quando afirma respeitar até a ordem das palavras das Sagradas Escrituras, porque nelas, diz, 'até a ordem das palavras é um mistério' (Ep. 57, 5), isto é, uma revelação. Reafirma ainda a necessidade de recorrer aos textos originários: 'Quando surge um debate entre os Latinos sobre o Novo Testamento, para as relações discordantes dos manuscritos, recorremos ao original, isto é, ao texto grego, no qual foi escrito o Novo Pacto. Do mesmo modo para o Antigo Testamento, se existem divergências entre os textos gregos e latinos, apelamos ao texto original, o hebraico; assim tudo o que brota da nascente, podemo-lo encontrar nos ribeiros' (Ep. 106, 2)."

(Audiência geral, Roma, em 7 de novembro de 2007).

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Dom Bosco e a Bíblia

Num capitulo da Constituição dogmática sobre a Revelação Divina, promulgada pelo Concílio Vaticano II, que trata da “Sagrada Escritura na vida da Igreja”, todos os cristãos são vivamente convidados à leitura freqüente do Livro Sagrado. Nos tempos de Dom Bosco, no Piemonte, na catequese paroquial e escolar, a leitura pessoal da Bíblia não era ainda suficientemente praticada. Mais que recorrer diretamente à Bíblia costumava-se fazer uma catequese com exemplos tirados dos Compêndios de História Sagrada.

É assim que se fazia também em Valdocco. Isto não quer dizer que Dom Bosco não lesse e não meditasse pessoalmente a Bíblia. Seu primeiro biógrafo assegura que, em 10 de fevereiro de 1886, já velho e doente, Dom Bosco, na presença de seus discípulos, costumava recitar, por inteiro, alguns capítulos das Cartas de São Paulo em grego e em latim (cf. MB 1, 394-395).

Das citadas Memorie Biografiche temos conhecimento que o clérigo João Bosco, durante o verão, em Sussambrino, onde morava com o irmão Giuseppe, costumava subir até a vinha de propriedade de Turco, e ali se dedicava ao estudo que não tivera oportunidade de fazer durante o ano escolar, especialmente ao estudo do Velho e do Novo Testamento, de Calmet, da geografia dos Lugares Santos, e dos princípios da língua hebraica, conquistando um conhecimento suficiente. Ainda em 1884, lembrava-se do estudo de hebraico e foi visto em Roma, com um professor de língua hebraica para explicar certas frases originais dos profetas, fazendo confronto com os textos paralelos de diversos livros da Bíblia. Entretinha-se também numa tradução do Novo Testamento do grego (cf. MB 1, 423).

Dom Bosco, portanto, como autodidata, foi um estudioso atento dos escritos da Bíblia, e deles teve um conhecimento bastante notável. Demonstrou, em tantos outros modos, este seu profundo interesse e estudo da Sagrada Escritura, e interessou-se muito em torná-lo conhecido aos seus filhos de Valdocco. Basta pensar na sua edição História Sagrada, impressa, pela primeira vez, em 1847, e depois reimpressa em 14 edições e dezenas e mais dezenas de re-impressões, até 1964.

Tantos outros escritos seus relativos à história bíblica, como Maniera facile per imparare la Storia Sacra, publicada pela primeira vez em 1850; a Vita di San Pietro, publicada em janeiro de 1857, como um volume das Leituras Católicas; a Vita di San Paolo, publicada em janeiro do mesmo ano, como mais um volume das Leituras Católicas; a Vita di San Giuseppe¸ publicada no fascículo das Leituras Católicas de março de 1867 etc. Dom Bosco mantinha como marcas do seu breviário, frases da Sagrada Escritura, como a seguinte: “ O Senhor bom consola nas tribulações” (Na 1, 7) (cf MB 2, 524).

Mandou pintar nas paredes do pórtico de Valdocco frases da Sagrada Escritura como esta: Mt 7,8: “Todo aquele que pedir receberá, aquele que procura acha; e a quem bate será aberto” cf MB 5, 543. Desde 1853, quis que seus estudantes de filosofia e de teologia estudassem, toda semana, dez versículos do Novo Testamento, e o recitassem literalmente, mas manhãs de quinta-feira.

Na inauguração do curso, todos os clérigos tinham nas mãos o volume da Bíblia Vulgata latina, aberto nas primeiras linhas do Evangelho de São Mateus. Mas Dom Bosco, rezada a oração, começou falar, em latim o versículo 18 do capitulo 16 de Mateus: “E eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (cf MB 6, 205). Desejava mesmo que seus filhos guardassem sempre na mente e no coração esta verdade evangélica.

Natale Cerrato

Tradução do Pe. Arthur Roscoe Daniel, Inspetoria São João Bosco, MG.
Divulgação: Sistema Salesiano de Animação da Família Salesiana (SSAF), Inspetoria São João Bosco, MG

sábado, 11 de setembro de 2010

A Palavra de Deus em nossa vida

Para todas as coisas negativas que somos tentados a afirmar, Deus tem uma correspondente resposta positiva:


Você diz: Isto é impossível!
Deus diz: Todas as coisas são possíveis (Lc 18,27)

Você diz: Estou muito cansando!
Deus diz: Eu te darei descanso (Mt 11,28-30)

Você diz: Estou sempre preocupado e frustrado!
Deus diz: Lance sobre mim suas preocupações (1 Pd 5,7)

Você diz: Ninguém me ama!
Deus diz: Eu te amo (Jo 3,16; 13,34)

Você diz: Eu não posso continuar!
Deus diz: A minha graça te basta (2 Cor 12,9; Sl 91,15)

Você diz: Estou desorientado!
Deus diz: Eu dirigirei o seu caminho (Pr 3,5-6)

Você diz: Eu não tenho condições de realizar tal tarefa!
Deus diz: Você pode fazer todas as coisas (Fil 4,13)

Você diz: Eu não sou capaz!
Deus diz: Eu sou capaz (2 Cor 9,8)

Você diz: Isto não vale a pena!
Deus diz: Isto valerá a pena (Rm 8,28)

Você diz: Eu não posso me perdoar!
Deus diz: Eu te perdôo (1 Jo 1,9; Rm 8,1)

Você diz: Eu não consigo!
Deus diz: Eu satisfarei todas as suas necessidades (Fil 4,19)

Você diz: Estou com medo!
Deus diz: Eu não te dei espírito de fraqueza (2 Tim 1,7)

Você diz: Eu não tenho fé suficiente!
Deus diz: Eu tenho dado a cada um uma medida de fé (Rm 12,3)

Você diz: Eu não sou inteligente o suficiente!
Deus diz: Eu te darei sabedoria (1 Cor 1,30)

Você diz: Eu me sinto sozinho!
Deus diz: Eu nunca te deixarei, jamais te abandonarei (Hb 13,5-6)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Como a Bíblia foi escrita?

A Bíblia é a Escritura Sagrada de Deus, todas as passagens contidas nela foram inspiradas pelo Espírito Santo de Deus, isto implica que cada letra escrita é verdadeira. Ela deve ser a luz, para todos os momentos, do nosso caminhar à Casa do Senhor. A palavra Bíblia é originária de uma planta que nascia e crescia espontaneamente às margens do Rio Nilo, chamada papiro. E a película ou folha, tirada do caule do papiro, chamava-se bíblos, palavra grega que significa livro, e o plural é biblion, em grego significa bíblia. Portanto, Bíblia quer dizer “coleção de livros”. A Bíblia era escrita em tijolos assados, em papiro (filamento de uma planta), ou em pergaminhos (pele de ovelha). Esta escrita era realizada na cidade de Pérgamo, daí o motivo de ser chamado de pergaminho. As copias mais antigas da Bíblia estão armazenadas na Biblioteca do Vaticano, na Itália, e no Museu Britânico. Você não pode ler a Bíblia como um simples livro, é preciso ter Fé para entender e acreditar em tudo que está escrito. Além de tudo, ela não é um livro, mas sim uma coleção de livros, Sagrados Livros.

Uma coleção de livros que contém a história da Salvação, desde a criação do mundo feita por Deus até as profecias da Segunda vinda gloriosa de Jesus, a Bíblia é a única, dentre os livros sagrados do mundo, não escrita por uma só pessoa. Pelo contrário, entre o Velho e o Novo Testamento há pelo menos 40 autores diferentes, provenientes da Ásia, África e Europa, num espaço de tempo de 1300 anos.


Ela traz as experiências da caminhada de um povo, por isso é a reflexão sobre a vida do homem e a resposta aos problemas existenciais ligando-os a Deus. É a reflexão sobre a vida humana e sobre Deus. O povo escolhido, o povo da Bíblia, discutia suas experiências, obtinha respostas iluminadas pela fé, que depois, ao longo do tempo foram escritas.


Deus era sempre a referência, o ponto de partida, o centro da vida desse povo. Por isso, foram muitos os autores que, iluminados por Deus, escreveram a Bíblia com estilos literários diferentes. Em síntese, a resposta sobre quem escreveu a Bíblia é simples: foram muitas as pessoas que a escreveram, todas elas iluminadas por Deus, inspiradas por Deus, então, o grande Autor das Sagradas Escrituras é Deus que usou de mãos humanas para escrevê-la.


Os textos da Bíblia começaram a ser escritos desde os tempos anteriores a Moisés (1200 aC). Escrever era uma arte rara e cara, pois se escrevia em tábuas de madeira, papiro, pergaminho (couro de carneiro). Moisés foi o primeiro codificador das leis e tradições orais e escritas de Israel. Essas tradições foram crescendo aos poucos por outros escritores no decorrer dos séculos, sem que houvesse uma catalogação rigorosa das mesmas. Assim foi se formando a literatura sagrada de Israel.

Até o século XVIII dC, admitia´se que Moisés tinha escrito o Pentateuco (Gen, Ex, Lev, Nm, Dt); mas, nos últimos séculos, os estudos mais apurados mostraram que não deve ter sido Moisés o autor de toda esta obra. A teoria que a Igreja Católica aceita é a seguinte:

O povo de Israel, desde que Deus chamou Abrão de Ur na Caldéia, foi formando a sua tradição histórica e jurídica. Moisés deve ter sido quem fez a primeira codificação das Leis de Israel, por ordem de Deus, no séc. XIII aC. Após Moisés, o bloco de tradições foi enriquecido com novas leis devido às mudanças históricas e sociais de Israel.

A partir de Salomão (972´932), passou a existir na corte dos reis, tanto de Judá quanto da Samaria (reino cismático desde 930 aC) um grupo de escritores que zelavam pelas tradições de Israel, eram os escribas e sacerdotes. Do seu trabalho surgiram quatro coleções de narrativas históricas que deram origem ao Pentateuco:

1. Coleção ou código Javista (J), onde predomina o nome Javé. Tem estilo simbolista, dramático e vivo; mostra Deus muito perto do homem. Teve origem no reino de Judá com Salomão (972´932).

2. O código Eloista (E), predomina o nome Elohim (=Deus). Foi redigido entre 850 e 750 aC, no reino cismático da Samaria. Não usa tanto o antropomorfismo (representa Deus à semelhança do homem) do código Javista.

Quando houve a queda do reino da Samaria, em 722 para os Assírios, o código E foi levado para o reino de Judá, onde ouve a fusão com o código J, dando origem a um código JE.

3. O código (D) ´ Deuteronômio (= repetição da Lei, em grego). Acredita´se que teve origem nos santuários do reino cismático da Samaria (Siquém, Betel, Dã,...) repetindo a lei que se obedecia antes da separação das tribos. Após a queda da Samaria (722) este código deve ter sido levado para o reino de Judá, e tudo indica que tenha ficado guardado no Templo até o reinado de Josias (640´609 aC), como se vê em 2Rs 22. O código D sofreu modificações e a sua redação final é do século V aC, quando, então, na íntegra, foi anexado à Torá. No Deuteronômio se observa cinco ´deuteronômios´ (repetição da lei). A característica forte do Deuteronômio é o estilo forte que lembra as exortações e pregações dos sacerdotes ao povo.

4. O código Sacerdotal (P) – provavelmente os sacerdotes judeus durante o exílio da Babilônia (587´537aC) tenham redigido as tradições de Israel para animar o povo no exílio. Este código contém dados cronológicos e tabelas genealógicas, ligando o povo do exílio aos Patriarcas, para mostrar´lhes que fora o próprio Deus quem escolheu Israel para ser uma nação sacerdotal (Ex 19,5s). O código P enfatiza o Templo, a Arca, o Tabernáculo, o ritual, a Aliança.

Tudo indica que no século V aC, um sacerdote, talvez Esdras, tenha fundido os códigos JE e P, colocando como apêndice o código D, formando assim o Pentateuco ou a Torá, como a temos hoje.

Se não fosse a Igreja Católica, não existiria a Bíblia como a temos hoje, com os 73 livros canônicos, isto é, inspirados pelo Espírito Santo. Foi num longo processo de discernimento que a Igreja, desde o tempo dos Apóstolos, foi ´berçando´ a Bíblia, e descobrindo os livros inspirados. Se você acredita no dogma da infalibilidade de Igreja, então pode acreditar na Bíblia como a Palavra de Deus. Mas se você não acredita, então a Bíblia perde a sua inerrância, isto é, ausência de erro. Esta conclusão nos leva a outra também importantíssima, que é a seguinte: se foi a Igreja, que guiada pelo Espírito Santo, compôs a Bíblia, logo, é ela também a única autoridade capaz de a interpretar segundo o que Deus quis nos dizer de fato. Por que a Igreja tem tanta certeza de que ela não erra naquilo que é essencial para levar os seus filhos à salvação? Por causa das grandes promessas que o próprio Senhor lhe fez, garantindo que ela guardaria sem erros o ´depósito da fé´ que Jesus nos deixou através dos Apóstolos.

Demorou alguns séculos para que a Igreja chegasse à forma final da Bíblia. Em vários Concílios, alguns regionais outros universais, a Igreja estudou o cânon da Bíblia; isto é, o seu índice.

Garante-nos o Catecismo da Igreja e o Concílio Vaticano II que:

´Foi a Tradição apostólica que fez a Igreja discernir que escritos deviam ser enumerados na lista dos Livros Sagrados´(DV 8; CIC,120). Portanto, sem a Tradição da Igreja não teríamos a Bíblia. Santo Agostinho dizia: ´Eu não acreditaria no Evangelho, se a isso não me levasse a autoridade da Igreja Católica´(CIC,119).

Por que a Bíblia católica é diferente da protestante? Esta tem apenas 66 livros porque Lutero e, principalmente os seus seguidores, rejeitaram os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico (ou Sirácida), 1 e 2 Macabeus, além de Ester 10,4´16; Daniel 3,24´20; 13´14.

A razão disso vem de longe.

No ano 100 da era cristã os rabinos judeus se reuniram no Sínodo de Jâmnia (ou Jabnes), no sul da Palestina, a fim de definirem a Bíblia Judaica. Isto porque nesta época começava a surgir o Novo Testamento com os Evangelhos e as cartas dos Apóstolos, que os Judeus não aceitaram.

Nesse Sínodo os rabinos definiram como critérios para aceitar que um livro fizesse parte da Bíblia, o seguinte:

(1) deveria ter sido escrito na Terra Santa;
(2) escrito somente em hebraico, nem aramaico e nem grego;
(3) escrito antes de Esdras (455´428 a.C.);
(4) sem contradição com a Torá ou lei de Moisés.

Esses critérios eram nacionalistas, mais do que religiosos, fruto do retorno do exílio da Babilônia. Por esses critérios não foram aceitos na Bíblia judaica da Palestina os livros que hoje não constam na Bíblia protestante, citados antes.

Acontece que em Alexandria no Egito, cerca de 200 anos antes de Cristo, já havia uma forte colônia de judeus, vivendo em terra estrangeira e falando o grego. Os judeus de Alexandria, através de 70 sábios judeus, traduziram os livros sagrados hebraicos para o grego, entre os anos 250 e 100 a.C, antes do Sínodo de Jâmnia (100 d.C). Surgiu assim a versão grega chamada Alexandrina ou dos Setenta. E essa versão dos Setenta, incluiu os livros que os judeus de Jâmnia, por critérios nacionalistas, rejeitaram.

Havia então no início do Cristianismo duas Bíblias judaicas: uma da Palestina (restrita) e a Alexandrina (completa – Versão dos LXX).

Os Apóstolos e Evangelistas optaram pela Bíblia completa dos Setenta (Alexandrina), considerando canônicos os livros rejeitados em Jâmnia. Ao escreverem o Novo Testamento usaram o Antigo Testamento, na forma da tradução grega de Alexandria, mesmo quando esta era diferente do texto hebraico. O texto grego ´dos Setenta´ tornou´se comum entre os cristãos; e portanto, o cânon completo, incluindo os sete livros e os fragmentos de Ester e Daniel, passou para o uso dos cristãos.

Das 350 citações do Antigo Testamento que há no Novo, 300 são tiradas da Versão dos Setenta, o que mostra o uso da Bíblia completa pelos apóstolos.

Verificamos também que nos livros do Novo Testamento há citações dos livros que os judeus nacionalistas da Palestina rejeitaram. Por exemplo: Rom 1,12´32 se refere a Sb 13,1´9; Rom 13,1 a Sb 6,3; Mt 27,43 a Sb 2, 13.18; Tg 1,19 a Eclo 5,11; Mt 11,29s a Eclo 51,23´30; Hb 11,34 a 2 Mac 6,18; 7,42; Ap 8,2 a Tb 12,15.

Nos séculos II a IV houve dúvidas na Igreja sobre os sete livros por causa da dificuldade do diálogo com os judeus. Finalmente a Igreja, ficou com a Bíblia completa da Versão dos Setenta, incluindo os sete livros.

Por outro lado, é importante saber também que muitos outros livros que todos os cristãos têm como canônicos, não são citados nem mesmo implicitamente no Novo Testamento. Por exemplo: Eclesiastes, Ester, Cântico dos Cânticos, Esdras, Neemias, Abdias, Naum, Rute.

Outro fato importantíssimo é que nos mais antigos escritos dos santos Padres da Igreja (patrística) os livros rejeitados pelos protestantes (deutero´canônicos) são citados como Sagrada Escritura. Assim, São Clemente de Roma, o quarto Papa da Igreja, no ano de 95 escreveu a Carta aos Coríntios, citando Judite, Sabedoria, fragmentos de Daniel, Tobias e Eclesiástico; livros rejeitados pelos protestantes. Ora, será que o Papa S. Clemente se enganou, e com ele a Igreja? É claro que não. Da mesma forma, o conhecido Pastor de Hermas, no ano 140, faz amplo uso de Eclesiástico, e do 2 Macabeus; Santo Hipólito (†234), comenta o Livro de Daniel com os fragmentos deuterocanônicos rejeitados pelos protestantes, e cita como Sagrada Escritura Sabedoria, Baruc, Tobias, 1 e 2 Macabeus.

Fica assim, muito claro, que a Sagrada Tradição da Igreja e o Sagrado Magistério sempre confirmaram os livros deuterocanônicos como inspirados pelo Espírito Santo.

Vários Concílios confirmaram isto: os Concílios regionais de Hipona (ano 393); Cartago II (397), Cartago IV (419), Trulos (692). Principalmente os Concílios ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546) e Vaticano I (1870) confirmaram a escolha.

No século XVI, Martinho Lutero (1483´1546) para contestar a Igreja, e para facilitar a defesa das suas teses, adotou o cânon da Palestina e deixou de lado os sete livros conhecidos, com os fragmentos de Esdras e Daniel.

Sabemos que é o Espírito Santo quem guia a Igreja e fez com que na hesitação dos séculos II a IV a Igreja optasse pela Bíblia completa, a versão dos Setenta de Alexandria, o que vale até hoje para nós católicos.

Lutero, ao traduzir a Bíblia para o alemão, traduziu também os sete livros (deuterocanônicos) na sua edição de 1534, e as Sociedades Biblícas protestantes, até o século XIX incluíam os sete livros nas edições da Bíblia.

Neste fato fundamental para a vida da Igreja (a Bíblia completa) vemos a importância da Tradição da Igreja, que nos legou a Bíblia como a temos hoje. Disse o último Concílio:

´Pela Tradição torna´se conhecido à Igreja o Cânon completo dos livros sagrados e as próprias Sagradas Escrituras são nelas cada vez mais profundamente compreendidas e se fazem sem cessar, atuantes. Assim o Deus que outrora falou, mantém um permanente diálogo com a Esposa de seu dileto Filho, e o Espírito Santo, pelo qual a voz viva do Evangelho ressoa na Igreja e através da Igreja no mundo, leva os fiéis à verdade toda e faz habitar neles copiosamente a Palavra de Cristo´ (DV,8).

Por fim, é preciso compreender que a Bíblia não define, ela mesma, o seu catálogo; isto é, não há um livro da Bíblia que diga qual é o índice dela. Assim, este só pode ter sido feito pela Tradição dos apóstolos, pela tradição oral que de geração em geração chegou até nós.

Se negarmos o valor indispensável da Tradição, negaremos a autenticidade da própria Bíblia.

É interessante notar que o Papa São Dâmaso (366´384), no século IV, pediu a S.Jerônimo que fizesse uma revisão das muitas traduções latinas que havia da Bíblia, o que gerava certas confusões entre os cristãos. São Jerônimo revisou o texto grego do Novo Testamento e traduziu do hebraico o Antigo Testamento, dando origem ao texto latino chamado de Vulgata, usado até hoje.


DO LIVRO ´ESCOLA DA FÉ II´ do Prof. Felipe de Aquino

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